Parte ativa da comissão técnica, o estatístico é pouco conhecido do público, mas de papel muito importante para o desenvolvimento tático da equipe. Willian Santa Maria, 30 anos, é o homem de confiança do treinador Marcelinho Ramos para esta função. Há mais de 15 anos no voleibol, Willian iniciou como jogador. Com passagem pela Europa, se tornou estatístico da equipe do Montes Claros Vôlei, tendo formação profissional para técnico e auxiliar.

willian (centro) acerta detalhes no treino com o auxiliar leandro dutra e o treinador marcelinho (foto: fredson souza/mcv)

Willian (centro) acerta detalhes no treino com o auxiliar Leandro Dutra e o treinador Marcelinho (Foto: Fredson Souza/MCV)

 

“Fui jogador até a temporada 2011/2012, quando tive a oportunidade de ir à Europa”, conta Willian. “Joguei a liga da Finlândia pelo HU-Kalajoki, da cidade de Himanka. Lá, prossegui com meus estudos de inglês”, afirma o estatístico, que foi levantador em sua época dentro das quatro linhas.

Willian deixou a carreira de atleta muito jovem, mesmo ainda com mercado na Europa, e atribui isso ao seu biótipo, mas principalmente ao sonho de seguir no voleibol como parte de uma comissão técnica. “Havia outras equipes interessadas em mim e o meu clube queria renovar, mas eu já não estava mais suportando tanto (a carga de treinamentos). Sou um cara que me cobro muito. Tenho um compromisso pessoal com a excelência, em fazer tudo perfeito”, diz. “Então treinava muito duro, mais do que o restando dos atletas. Para manter o meu peso, tinha que comer regrado para caramba e treinar muito. Isso me cansou mais rápido do que eu havia planejado para a minha carreira. Pretendia parar aos 29 anos, parei aos 27”, confessa.

willian e a esposa camilla santa maria (foto: divulgação)

Willian e a esposa Camilla Santa Maria (Foto: Divulgação)

“Outro motivo foi a oportunidade que tive de entrar em uma comissão técnica. Uma coisa que sempre quis, apareceu antes do que eu esperava, e isso foi preponderante para mim. Além do que, à época ficava longe da minha atual esposa. Eu queria me casar, então naquele momento isso pesou na minha decisão em ser técnico”, confidencia Willian, casado com Camilla Santa Maria, que também trabalha atua na área esportiva. “Ela é coordenadora do segmento infantil de uma grande rede de academias em São José dos Campos. Na verdade ela quem segura o casamento. Ela ganha muito mais dinheiro do que eu (risos)”, diz sorridente o estatístico sobre a possibilidade nula de a esposa vir morar com ele em Montes Claros.

Muito confiante no seu trabalho e na sua função dentro do MOC Vôlei, Willian diz acreditar no seu desempenho em função de seu conhecimento abrangente de voleibol, por ter sido jogador e por ter a qualificação de treinador. “O diferencial do cara que é técnico, do cara da beira da quadra, que tem vivência, que gosta de estudar, é a transferência para o treinador”, salienta. “Além de passar os números frios, tenho uma opinião formada sobre estes números. Sei o que estou falando, sei o que vai acontecer, conheço as características dos jogadores que estão fazendo aqueles fundamentos que estão sendo transformados em números. A transferência de dados fica mais clara e limpa. Oportuniza discussão, onde há crescimento. Posso dar a minha opinião dentro do que temos que fazer, junto ao assistente e ao técnico. Tenho mais a contribuir além de ser só um estatístico que vai lá, dá os números e não quer mais saber”, diz.

Willian ressalta ainda a importância desta função não apenas no dia a dia de treinos e jogos, mas também na montagem de elenco mais competitivo. “A função do estatístico é coletar dados, transformar os fundamentos e comportamentos da equipe em números para abastecer o técnico e o assistente com informações onde eles consigam elaborar um plano de jogo para que possamos jogar contra nossos adversários de maneira planejada, além de observar os índices de aproveitamento da própria equipe e procurar melhorar. É, também, montando um banco de dados para que a equipe técnica, ao final da temporada, possa avaliar o próprio time e jogadores adversários em possíveis contratações”, conta.

VIRADA NA CARREIRA

Santa Maria relata ainda como o amigo de longa data, Reinaldo Bacilieri, teve grande responsabilidade na sua decisão precoce em mudar de função dentro do vôlei. “Há muito tempo fui atleta do Reinaldo, que hoje é assistente em Novo Hamburgo e à época era assistente no São José Vôlei. Ele disse que precisava de alguém como eu para trabalhar na comissão técnica e perguntou se eu tinha interesse”, conta. “Como eu já estava quase me formando e é uma coisa que sempre quis para mim – ser técnico de voleibol, trabalhar dentro de uma comissão técnica – aproveitei”, continua. “Quando voltei da Europa, fui direto a São José e lá construímos um projeto bacana. Começamos do zero e em três anos conseguimos colocar a equipe na Superliga, degrau a degrau. Vencemos a primeira divisão paulista, depois fomos à divisão especial, vencemos a Liga Nacional e a Superliga B para ascendermos à Superliga principal.”

willian e comissão técnica (foto: fredson souza/mcv)

Willian e comissão técnica (Foto: Fredson Souza/MCV)

 

A trajetória vencedora logo no início da carreira em comissão técnica é motivo de orgulho para Willian. “Muito legal fazer parte desta história do São José.” E foi lá que o ex-levantador decidiu por investir na área de estatística para poder se tornar um profissional mais completo. “Comecei como técnico da iniciação e auxiliar das categorias acima. No segundo ano me tornei assistente técnico e, também, trabalhava com a parte de estatística; não tínhamos um profissional para cada área. Eu fazia a parte de quadra e a estatística com algumas plataformas que nós mesmos havíamos desenvolvido. Não era nem o Data Volley (plataforma adotada pelo Montes Claros Vôlei e muitas outras equipes da Superliga). O Data Volley veio após vencermos a Superliga B. No início da temporada seguinte pagamos um profissional para nos dar esta capacitação”, conta.

“Passei para a estatística pela paixão”, acrescenta Willian, que pretende, em longo prazo, ser treinador de voleibol. “Eu queria ser um bom estatístico para ser um bom técnico. Penso que temos que evoluir degrau a degrau dentro do nosso melhor. Por exemplo, tenho um sonho e vou correr atrás deste sonho até alcança-lo.”

willian e rafael durante treino do moc vôlei (foto: fredson souza/mcv)

Willian e Rafael durante treino do MOC Vôlei (Foto: Fredson Souza/MCV)

Apesar do sonho de ser treinador, Willian não tem pressa. Ele diz que isto pode esperar, pois ainda é novo, e que o mais importante no momento é fazer parte de um projeto de trabalho sólido. “Hoje sou estatístico, me considero competente no que faço e serei o melhor possível neste sentido. Se eu conseguir fazer parte de um projeto de longo prazo, onde eu consiga ser um estatístico durante todo este ciclo, eu serei”, diz. “Desde que eu consiga me manter em alto nível, dentro de uma equipe de alto nível, isso já é parte da realização do meu sonho”, complementa.

“Se eu conseguir evoluir dentro deste projeto, é algo que brigarei para fazer, também”, continua Willian, que ressalta sua cautela. “Não tenho intenção nenhuma de passar por cima de alguém ou de torcer para que eu consiga alcançar um degrau acima prejudicando outra pessoa. Fundamental para mim hoje, como pessoa, é fazer parte de uma comissão técnica competente dentro de um projeto sério. Acho que este é um sonho que foi oportunizado a mim este ano, no Montes Claros Vôlei”, finalizou.

Com qualificação de técnico nível 3, onde é habilitado para assumir a função de treinador em qualquer equipe do mundo, Willian estava bem encaminhado em um projeto que acabou não vingando, e encontrou em Montes Claros a oportunidade para se reerguer no esporte. “Estava em um projeto onde seria técnico de uma equipe sub-19 bastante qualificada. Infelizmente este projeto acabou tendo alguns problemas e não saiu. Eu fiquei sem nada em um momento muito difícil”, confidencia Santa Maria. “O país em crise e com um mercado muito seleto, é muito difícil você dentro de uma equipe de Superliga hoje. Naquele momento entrei em contato com o Andrey (Souza, gestor do Montes Claros Vôlei) e com o Marcelinho (treinador), pediram meu currículo, aceitaram e acabou que deu certo”, completa.

Mesmo já tendo a especialização para seguir com o seu sonho de longo prazo de ser treinador de uma equipe profissional, Willian garante que a busca pelo crescimento é constante. “Para o que quero já tenho a qualificação necessária, mas se tiver a oportunidade, vou fazer (a especialização de treinador nível 4) porque é conhecimento, amadurecimento, e o nível quatro te oportuniza distribuir este conhecimento, compartilhar e ensinar outras pessoas. Acho que é um papel nosso (como profissional)”, finaliza.

AGREGANDO CONHECIMENTO

alunos do curso de data volley oferecido pela fpv (foto: divulgação)

Alunos do curso de Data Volley oferecido pela FPV (Foto: Divulgação)

 

Na última semana, Willian Santa Maria participou em São Paulo de um curso de Data Volley, plataforma estatística adotada pelo Montes Claros Vôlei e várias outras equipes, que foi ministrado pelo nosso auxiliar técnico e da Seleção Brasileira Juvenil, Leandro Dutra, e pela pioneira da estatística dentro do voleibol brasileiro, Sandra Caldeira.

O curso, que teve por objetivo introduzir a experimentação do programa para que mais pessoas possam ter o domínio do software de análise de jogo, foi realizado pela Federação Paulista de Voleibol (FPV) no Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa. Profissionais e entusiastas, não apenas do voleibol, como também do basquete de todo o Brasil participaram das atividades, que lotaram a capacidade máxima de 32 pessoas.

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Por: Cid Bruno/MCV

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